Unidade de Campo Alegre processa quase 2 milhões de toneladas e desbanca lideranças tradicionais do Nordeste em ciclo marcado por desafios climáticos e nova estratégia industrial.
A safra alagoana de cana-de-açúcar 2025/2026 chegou oficialmente ao fim no último sábado, consolidando uma mudança profunda no perfil produtivo do estado. Puxada pela Usina Porto Rico, localizada em Campo Alegre, a indústria sucroenergética estadual priorizou a fabricação de etanol em detrimento do açúcar, impulsionada pelas cotações do mercado internacional. Com 1,96 milhão de toneladas de cana processadas e um volume histórico estimado em 66 milhões de litros de etanol, a Porto Rico assumiu a liderança do ranking regional de biocombustíveis, superando usinas tradicionalmente hegemônicas no Nordeste.
O ciclo produtivo que acaba de se encerrar totalizou cerca de 17,8 milhões de toneladas de cana moídas em Alagoas, representando um crescimento discreto frente aos 17,4 milhões da temporada anterior, conforme apontam os balanços do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Alagoas (Sindaçúcar-AL). O grande diferencial da safra residiu na alteração estrutural do mix de produção. Enquanto o açúcar enfrentou retração ao longo dos primeiros meses do ano, o etanol registrou altas vigorosas de produção estadual. No escopo das maiores produtoras, destacaram-se cinco unidades essenciais para a sustentação do volume estadual: Usina Porto Rico, Usina Coruripe, Usina Caeté, Usina Santo Antônio e Usina Santa Clotilde. A Porto Rico reconfigurou o topo do mercado ao ultrapassar a Usina Coruripe, que liderava a região com cerca de 63,1 milhões de litros, estabelecendo um novo paradigma de liderança operacional fundamentado na liquidez do mercado de combustíveis. É importante ressaltar que os dados finais consolidados de cada unidade dependem da publicação oficial de fechamento do Sindaçúcar-AL, agendada para os próximos dias.
O desempenho de ponta da Usina Porto Rico decorre de uma engenharia agronômica e financeira rigorosa associada à leitura rápida de mercado. Do ponto de vista agrícola, a unidade manteve uma produtividade elevada de 76 toneladas por hectare mesmo enfrentando o déficit hídrico registrado entre o final de 2025 e o início de 2026. A preservação deste índice foi garantida pela expansão maciça de sistemas de irrigação por pivô e gotejamento, que hoje cobrem cerca de 80% das áreas de cultivo da empresa, além da adoção de variedades de cana mais responsivas. Sob a ótica comercial, o mercado internacional ditou as regras da fábrica. Com a libra-peso do açúcar cotada na faixa de 14 centavos de dólar e o equivalente em etanol atingindo 17 centavos de dólar, a remuneração superior do biocombustível forçou o ajuste rápido das caldeiras e destilarias para maximizar a extração alcooleira.
Esta transição imediata na matriz produtiva gera reflexos robustos na economia macroeconômica de Alagoas. A opção massiva pelo etanol injeta capital imediato no fluxo de caixa das agroindústrias, visto que o biocombustível possui escoamento diário no mercado interno. Em contraste, o açúcar exige embarques volumosos, estocagem prolongada e um prazo maior de pagamento via exportação. Para a região de Campo Alegre, o prolongamento da moagem da Porto Rico até o dia 18 de abril significou a manutenção de postos de trabalho e a sustentação do comércio local, injetando salários na economia municipal por um período além do cronograma habitual da Zona da Mata.
Apesar da conquista do topo do ranking, especialistas do setor sucroenergético e lideranças sindicais pontuam os riscos operacionais atrelados à estratégia de alongamento do ciclo. O início tardio da moagem na Usina Porto Rico, deflagrado em setembro devido a adequações e investimentos na planta industrial, empurrou o encerramento da safra para as vésperas do período chuvoso. A própria direção da usina reconhece que operar o maquinário de transporte e realizar o corte da cana durante a iminência do inverno regional encarece a logística, reduz o rendimento industrial por tonelada e amplia os riscos de segurança no campo. O cenário ideal, segundo diretrizes técnicas do setor, prevê a conclusão das atividades impreterivelmente até o mês de março.
O cenário projetado para a safra 2026/2027 indica o aprofundamento desta virada alcooleira, alicerçada por previsões meteorológicas de chuvas acima da média histórica, o que deve impulsionar a oferta de matéria-prima. O presidente do Sindaçúcar-AL, Pedro Robério Nogueira, já avalia que as usinas manterão a otimização de suas destilarias focadas na transição energética e no fluxo de caixa rápido gerado pela gasolina e pelo etanol. Com a Usina Porto Rico consolidando sua posição na liderança tecnológica, a tendência é que o mercado assista a uma corrida por modernização agrícola entre os grandes grupos de Alagoas, elevando os investimentos em biotecnologia e irrigação de precisão para garantir competitividade na próxima temporada.
Por Jardel Cassimiro, Editor-Chefe
